Marcela (Macela) (Achyrocline satureioides (Lam.) DC.)
Família Botânica: Asteraceae
Origem: Nativa do Sul da América do Sul (Brasil, Uruguai)
Partes Utilizadas: Flores (Capítulos Florais)
Indicações: Alivia cólicas estomacais, dor de barriga e diarreias leves, Ação calmante e antiespasmódica digestiva, Proteção e regeneração da parede estomacal
Preparo: Despejar 200ml de água fervente sobre 1 colher de sopa de flores de marcela. Tampar por 10 minutos e coar.
Contraindicações: Pacientes com alergia a plantas Asteraceae ou em uso de medicamentos sedativos muito fortes.
Evidências científicas: digestão e calmante tradicional
A marcela (Achyrocline satureioides), também chamada macela, é uma das plantas mais tradicionais do Sul do Brasil, do Uruguai e da Argentina, com monografia na Farmacopeia Brasileira e presença no Memento Fitoterápico da ANVISA. A pesquisa farmacológica investigou a atividade dos flavonoides — quercetina, luteolina e 3-O-metilquercetina — sobre o trato digestivo, observando ação antiespasmódica sobre a musculatura intestinal e propriedades anti-inflamatórias. Estudos experimentais avaliaram o potencial da planta contra a bactéria Helicobacter pylori, com resultados preliminares promissores que motivam novas pesquisas. A tradição do 'chá de marcela' para cólicas, dor de barriga e 'mau-estar do estômago' é uma das mais enraizadas do folclore gaúcho — a planta é levada nos bolsos por devotos em procissões e usada em chás de novena. A ciência confirma parte da tradição, mas o uso é coadjuvante.
Fitoquímica: quercetina, luteolina e achyrobrotano
Os capítulos florais da marcela concentram flavonoides metoxilados e glicosilados — quercetina, luteolina, 3-O-metilquercetina e 3-O-metilgalangina —, ácido cafeico e derivados, e o achyrobrotano, um composto exclusivo do gênero Achyrocline. Os flavonoides são os responsáveis pela atividade antiespasmódica (relaxamento da fibra muscular lisa intestinal) e pela inibição da liberação de histamina pelas células imunes locais, mecanismo que fundamenta o uso contra cólicas. O achyrobrotano e outros componentes têm atividade antioxidante. O aroma característico vem do óleo essencial em baixa concentração. A planta é tradicionalmente coletada em campo nativo no final da primavera, quando os capítulos florais estão no ponto máximo de flavonoides, e a secagem à sombra preserva os compostos.
História: a 'marcela bentinha' do folclore gaúcho
A marcela é parte indissociável da cultura do Sul do Brasil. No Rio Grande do Sul, a colheita da marcela na época das procissões de Nossa Senhora (novenas de maio) é um ritual: as flores são colhidas e levadas às igrejas para serem abençoadas, e depois guardadas em casa para o chá do ano inteiro — daí o nome popular 'marcela-benta' ou 'marcela bentinha'. O chá é oferecido a visitas, usado para cólicas e 'nervos', e a planta também aparece em preparados de travesseiros aromáticos. No Uruguai e na Argentina, a macela é usada de forma semelhante. A pesquisa farmacológica sul-americana, com destaque para universidades do Rio Grande do Sul, deu base científica à tradição, e a espécie é hoje cultivada comercialmente. A marcela é um símbolo da fitoterapia popular gaúcha.
Segurança, contraindicações e interações
A marcela é segura para a maioria dos adultos em doses de chá (1 a 2 xícaras ao dia). Pessoas com alergia a plantas da família Asteraceae (camomila, margaridas) podem ter reações cruzadas e devem evitar. A planta pode potencializar sedativos e ansiolíticos, cujo efeito pode ser somado. Gestantes devem usar com moderação, preferencialmente com orientação, e lactantes de forma similar. O uso contínuo em altas doses não é recomendado sem avaliação. Cólicas persistentes, dor abdominal intensa ou alterações intestinais exigem avaliação médica — o chá não deve mascarar quadros que precisam de diagnóstico. Este conteúdo é informativo e não substitui orientação profissional.
Como escolher, armazenar e preparar
Os capítulos florais secos de marcela devem manter coloração amarelo-dourada e aroma adocicado característico. Flores desbotadas ou sem aroma indicam perda de qualidade. Armazene em pote fechado ao abrigo da luz e umidade por até 8 meses — a tradição gaúcha de guardar a marcela 'benta' por meses é viável com armazenamento adequado. No preparo, use 1 colher de sopa de flores para 200 ml de água fervente, tampe por 10 minutos e coe. Beba 1 xícara após as refeições ou em momentos de cólica. A versão com um toque de mel é tradicional. Para cólicas, o chá morno em pequenos goles é o uso clássico. Não use em excesso diário contínuo.
Mitos e verdades sobre a marcela
Mito: 'marcela só existe no Sul do Brasil'. Verdade: a espécie ocorre também no Uruguai, Argentina e outros países da América do Sul. Mito: 'marcela e camomila são a mesma planta'. Verdade: são espécies diferentes (Achyrocline satureioides e Matricaria chamomilla), embora ambas sejam calmantes digestivas de Asteraceae. Mito: 'quanto mais forte, mais cura'. Verdade: doses moderadas bastam; excessos irritam o estômago. Mito: 'marcela cura úlcera'. Verdade: há estudos preliminares contra H. pylori, mas o tratamento de úlceras é médico. Essas informações ajudam a valorizar a planta com realismo.
Marcela na rotina: a 'bentinha' das novenas
A marcela é mais que um chá: é patrimônio cultural do Sul do Brasil. A tradição de colher a marcela nas novenas de maio, levar as flores à igreja para benzer e guardá-las para o chá do ano é um ritual que atravessa gerações — e a planta 'benta' tem lugar garantido na cozinha gaúcha, onde o chá é oferecido a visitas e usado para cólicas e 'nervos'. Na rotina, 1 xícara após as refeições ou em momentos de cólica é o uso clássico, com o sabor adocicado e o aroma característico. Combinações tradicionais: marcela com camomila (dupla calmante-digestiva) e com erva-doce. Um ponto de identificação: a marcela (Achyrocline satureioides) é diferente da camomila (Matricaria chamomilla), embora ambas sejam de Asteraceae e calmantes — as flores da marcela são amarelas, sem as pétalas brancas da camomila. Alérgicos a Asteraceae devem evitar. O armazenamento correto das flores secas, em pote fechado ao abrigo da luz, preserva a qualidade por meses. A marcela integra a Farmacopeia Brasileira e é estudada por universidades do Sul — a tradição das novenas encontra a ciência. Com moderação, a 'bentinha' segue cuidando das famílias.
Perguntas frequentes sobre a marcela
Marcela e camomila são a mesma planta? Não — são espécies diferentes (Achyrocline satureioides e Matricaria chamomilla), embora ambas sejam calmantes digestivas de Asteraceae. Para que serve o chá? Cólicas, dor de barriga, digestão e 'nervos' — o uso tradicional gaúcho. Posso guardar a marcela 'benta' por meses? Sim, com armazenamento em pote fechado ao abrigo da luz. Grávidas podem tomar? Com moderação e orientação. Alérgicos a camomila podem usar? Devem evitar, pela reação cruzada entre Asteraceae. Quantas xícaras por dia? 1 a 2 xícaras após as refeições, com pausas.
Dúvidas rápidas sobre a marcela
A marcela pode ser usada como calmante? Sim, é o uso tradicional, com ação digestiva e relaxante. Qual a melhor época de colheita? No final da primavera, quando as flores concentram os flavonoides.
Referências científicas
- Farmacopeia Brasileira 6ª Edição — Monografia de Achyrocline satureioides (Marcela).
- ANVISA. Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira — Achyrocline satureioides.
- Joray MB, et al. Structure and antimicrobial activity of phloroglucinol derivatives from Achyrocline satureioides. Journal of Natural Products. 2015.
- MINISTÉRIO DA SAÚDE. RENISUS — Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS.